sexta-feira, 4 de abril de 2014

SHEHERAZADE NO PAREDON: PCdoB ACABOU E JANDIRA FEGHALI PREPARA O FUNERAL

OPINIÃO

Deputada Jandira Feghali (PCdoB/RJ
A questão seria apenas tragicômica, não fosse a seriedade que um enterro exige de quem o vê passar. Explico: A deputada Jandira Feghali (PCdoB/RJ) entrou com representação na Procuradoria Geral da República contra a jornalista  Rachel Sheherazade e o SBT por “incorrerem no crime de apologia e incitamento à tortura e ao lin
chamento, tipificado no art. 287″ do Código Penal. Isso porque, ao divulgar notícia de que um jovem suspeito de assalto fora amarrado a um poste no Rio de Janeiro, a jornalista defendeu a ação dos agressores do jovem e, entre outras coisas, classificou o fato como desmoralização da polícia diante da omissão do Estado, afirmando ser “compreensível” que “cidadão de bem” reagissem. Para completar ela chamou o adolescente de marginal e pediu, em tom de deboche, aos grupos de defesa de direitos humanos que estavam com “pena” do garoto para adotarem o “bandido”.>>>

Deve-se dizer que a âncora do SBT, de nome Rachel Sheherazade, não foi feliz na sua análise do fato, pois que se exige do jornalista um certo “distanciamento” da notícia, para que o próprio telespectador possa tirar suas conclusões. Também esclarecer que sou adepto do pensamento que reconhece como danoso o baixo nível da TV brasileira, que tem se rendido ao sensacionalismo para obter maior audiência.
No entanto, duas questões de maior vulto, oriundas da iniciativa da deputada Jandira Feghali, nos obrigam a analisar a questão com maior profundidade. A primeira, que exige a punição de Rachel Sheherazade diante do cometimento do crime de “incitação à violência” e a segunda, que pede a “suspensão do repasse de verbas oficiais ao SBT”.
O PCdoB, para quem conviveu com ele, ao lado dele ou o estudou, sempre teve um desprezo político pelo povo, pois é signatário do princípio de que “o papel do partido é dirigir as massas”, como preconizava Stalin. Partido são os dirigentes e massas é o conjunto dos operários que, para eles, não tem capacidade de se auto-gerir. Hoje, contrariando a crítica Leninista aos Mencheviques, para subtrair-se da classificação de massa ignara, alcançando a capacidade de auto-gerir-se, basta ao cidadão filiar-se ao PCdoB, claro. Nesse caso, para Jandira Feghali, Rachel Sheherazade é massa ignara.
Estranhamente desatenta, a bravata midiática autoritária da deputada Jandira Feghali, supostamente em defesa dos direitos humanos, alinha-se perfeitamente aos interesses dos Estados Unidos, que usa o mesmo mote para invadir economias e derrubar governos pelo mundo afora. Sem falar no fato de que, ao propor o massacre do Estado sobre Rachel Sheherazade - que deve ser “exemplar”, nas palavras de Luiz Eduardo Greenhalgh no Twitter, a sanha punitiva mancha a história dos mártires do PCdoB que deram suas vidas à luta contra o autoritarismo do Estado, entre eles Angelo Arroyo, Pedro Pomar e José Drummond, mortos pela ditadura em 1976 no bairro da Lapa em São Paulo.
Por outro lado, falta coerência à deputada Jandira Feghali que, diante das acusações de desvio de dinheiro público praticadas por membros do seu partido no Ministério do Esporte - ainda sob investigação, não propôs que o Fundo Partidário suspendesse o repasse de verbas para o PCdoB até que fosse terminado o inquérito. Como também não propôs o mesmo diante das denúncias de negócios escusos do governo com a Rede Globo. O que nos permite intuir que a proposta para suspender, antecipadamente, os repasses oficiais de verbas para o SBT, antes de qualquer decisão judicial sobre o assunto, tem caráter absolutamente político-autoritário e midiático. Ninguém tem dúvida que outras emissoras já tenham cometido crimes, seja de incitação ou de apologia à violência – fato tão explícito que um adolescente de 14 anos fez questão de alertar-me na semana passada. Por que ela não propôs o mesmo contra as outras emissoras?
Ainda cabe dizer que a incoerência beira ao abismo quando observa-se que a deputada Feghali nada vê de errado no “financiamento público dos meios de comunicação pelo Estado” – fator que contamina o exercício da liberdade de imprensa. Pelo contrário, revela seu oportunismo de valer-se desse Estado-Governo que ela endossa, para tentar subjugar a imprensa, ameaçando suspender a transferência de verbas oficiais ao SBT.
Moralmente falando, é lamentável que a deputada Jandira Feghali jogue na lama a história de seu partido, o PCdoB, que durante décadas pregou a violência da luta armada para chegar ao poder no Brasil, inclusive com diversos “companheiros” mortos, presos e torturados pela ditadura militar em razão disso. O que pode ser uma opinião jornalística diante de décadas de pregação, organização e incitação à violência revolucionária da história do PCdoB?
Claro que a deputada poderá defender-se dizendo que a realidade era outra e que hoje o partido segue linhas mais próximas ao reformismo, como o desenvolvimentismo e a social-democracia, que são as linhas do PSB e PSDB. Mas, fora da página oficial do partido, o que temos de informação sobre a história do PCdoB é assim simplificada na Wikipédia:
“Desde o seu surgimento, o PCdoB seguiu diversas linhas políticas baseadas em distintas experiências ditas comunistas pelo mundo. Surgiu sendo contrário a linha adotada por Nikita Khrushchov na antiga União Soviética e reivindicando o legado de Josef Stalin. Nos anos 1960 adota a linha maoísta (alinhando-se com o Partido Comunista Chinês) e passa a praticar a tática de guerrilhas (o PCdoB é famoso pela atuação na Guerrilha do Araguaia). Em 1978 passa a reivindicar o comunismo na Albânia (Hoxhaísmo).” (grifo).
Não entremos, aqui, no mérito desses vínculos do PCdoB com Joseph Stalin, Mao Tsé Tung ou as práticas de guerrilha aprendidas em Cuba. Deixo para cada um o esforço de pesquisar o assunto com maior acuidade. Mas interessa à sociedade, particularmente, desnudar as propostas da deputada Jandira Feghali no trato da opinião da jornalista Rachel Sheherazade no seu trabalho no SBT.

O que se nos afigura nessa tentativa de lançar Rachel Sheherazade à fogueira das bruxas, é que o fogo vai se espalhando pelas vestes lustrosas do PCdoB dos dias atuais. A morte profissional de Rachel Sheherazade está sugerida na desproporcional punição pretendida por Jandira Feghali, mas o que passa sem cortejo é o enterro do próprio PCdoB.


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