sábado, 4 de junho de 2016

ELITISMO UNIVERSITÁRIO: DESSERVIÇO PARA A SOCIEDADE

OPINIÃO

A mais recente iniciativa dos estudantes da UnB nas redes sociais, denunciando as práticas elitistas dos professores universitários e da própria universidade no dia a dia do curso de Relações Internacionais é um poderoso sintoma do tipo de pais que estivemos construindo, enquanto a questão dos direitos humanos e do meio ambiente, entre outros, ocuparam o pódio do que podemos denominar de pensamento crítico social. Na calada da noite, encoberto pela retórica dos discursos acadêmicos e dos conhecimentos científicos de pobres resultados, grassou e ainda grassa a pequenez da arrogância e da prepotência cega, que impossibilita o desenvolvimento de um modelo universitário capaz de servir à sociedade que à sustenta.
Enquanto na sociedade chegou-se ao extremo das Audiências de Custódia, onde o juiz foca a sua observação dos fatos investigando se a abordagem policial foi adequada na prisão do cidadão – necessária, mas excessivamente maculada pelo entendimento de que somente as forças policiais cometem abusos contra os direitos humanos, no ensino universitário (apenas como exemplo) a cidadania – um dos pilares da República e do estado democrático de direito -, é destratada, desconsiderada e perseguida pelas prepotências imexíveis da arrogância acadêmica. Então não haveremos de combater o assédio moral e sexual>>>
<<< dos professores sobre os estudantes? Não haveremos de combater o preconceito contra os acadêmicos que tem filhos - para o “pensamento crítico” professoral uma “impossibilidade de trilhar a vida acadêmica”? Então não haveremos de combater a visão de que os estudantes não podem “deitar para descansar” porque esta seria uma postura inadequada para quem decidiu optar pelo curso de Relações Internacionais? Até parece que não há povos inteiros vivendo na penúria das migrações provocadas pela guerra, nem fome, nem exclusão econômica de milhões de pessoas no Brasil e no mundo – triste realidade que compõe o ambiente de atuação dos futuros diplomatas. Claro, se a academia não tiver abolido a própria realidade.
Enquadrados nesse viés elitista imposto aos estudantes universitários, dá para ter uma ideia do papel da vaidade, da arrogância, da prepotência e da pretensa superioridade dos acadêmicos que sobreviverem ao próprio curso. Daí sobram exemplos do desastre inevitável que tem marcado a presença de professores e pesquisadores alçados ao poder executivo, legislativo e judiciário. De tal grau de negação da cidadania, que se fez necessário que as denúncias fossem veiculadas no anonimato, para evitar, nesse caso presumivelmente revelador, que fossem “perseguidos”. Perguntamos: sob qual acusação?
O grande problema de nosso processo inacabado de redemocratização, cujos ensaios foram consagrados no país com o movimento das Diretas Já em meados de 1984-85, foi o fato de ter sido absorvido pelas estruturas tradicionais - elitistas nas universitárias e, de certo modo,, também no movimento sindical, que no nascimento da própria Central Única dos Trabalhadores (CUT) optou por um modelo sindical “de empregados com carteira assinada”, negando a integração dos movimentos sociais de gênero, raça, de portadores de deficiência e de segregação econômica que foram essenciais, fundamentais e decisivos na reconstrução democrática do pais. Absorção que fundamenta a “reserva política”, própria do pensamento acadêmico, que, sem ruborizar, intitula-se como único merecedor do quinhão dos investimentos, dos salários e benefícios que o Estado e a iniciativa privada oferecem. Para a elite e para o elitismo, o povo e seus instrumentos de garantia e geração de novos direitos são estertores a serem suportados apenas dentro dos parâmetros que não lhes retire os meritórios privilégios. Mas a chama democrática não se apaga com discursos e tentativas de criminalizar o movimento social. Ao contrário, o acende e, de certo modo, o alimenta. Mas, antes de tudo, é preciso revela-los, como agora fazem os estudantes do curso de Relações Internacionais da UnB.
Ainda ao final da década de 80, pós-Constituinte, um grupo de ativistas de Ceilândia que desenvolvia um projeto chamado Mandacaru, se viu às voltas com a evidência do desgaste dos instrumentos do movimento social, entre eles o próprio movimento sindical, cujo modelo de participação se esgotava em práticas não inclusivas. Não houve espontaneidade nesse caminho. Resultou de uma clara opção pelo modelo engessado da institucionalização dos movimentos sociais. De tal modo evidente a assertiva acima, que o próprio ensaio do Partidos dos Trabalhadores em núcleos foi abandonado pela mesma visão elitista, já enraizada no PCdoB/PCB, no PT e na CUT, simplesmente extirpando-os, em razão do perigo de não se enquadrarem no “controle” acomodado nas estruturas institucionais (partidos e sindicatos). Mesmo a crítica posterior, feita a estes partidos e à CUT nos anos que se seguiram, não se deu pelo fato de terem abandonado os movimentos sociais. Foram críticas pontuais relacionadas à economia, às alianças políticas e à negação da reforma agrária entre tantas. Críticas que possibilitaram o surgimento de outras centrais sindicais e partidos políticos, mas que permaneceram na disputa das mesmas estruturas institucionais.
Dessa percepção periférica ceilandense, surgiu a ideia de implantar unidades orgânicas populares encarregadas de tratar dessas minúcias de negação de direitos constitucionais e dos direitos humanos, que se expressam nas práticas agora reveladas pelos estudantes de Relações Internacionais da UnB. Práticas que se repetem em todos os níveis escolares e nas prestações de serviços públicos. Na ocasião a ideia foi sumariamente descartada por essas organizações institucionais e três décadas transformaram direitos humanos em assunto de doutores elitistas e a cidadania em oferta de registro de nascimento gratuito, emissão de Carteira de Identidade, CPF e serviços esporádicos de medição de pressão, corte de cabelo, cursos profissionalizantes relâmpagos e outras concessões do Sistema S (Sesi, Sesc etc) com o apoio da Rede Globo. É esse o pilar da cidadania a que se refere a Constituição de 1988 em seu artigo 1º, inciso II ao definir de que é feita a República e o Estado Democrático de Direito? Parece óbvio que não. E, nesse exato momento em que se denuncia a atuação disfarçada da elite para suprimir direitos e negar a constituição de 1988, vemos tais organizações institucionais, também divorciadas do povo, buscando os movimentos populares que abandonaram para restabelecer – novamente – o fio umbilical que cortaram nas três décadas passadas.
Em 1977, a greve dos estudantes da UnB foi a ousadia inicial dos movimentos contra a ditadura e pela redemocratização do país, antecedida pelos Movimentos Contra o Custo de Vista e seguida pelas greves do ABC paulista em 1978. Hoje vemos novamente os estudantes da UnB à frente de outra nova luta: transformar os direitos humanos e constitucionais em direitos reais, que devem se expressar além dos discursos vazios da elite e ocupar o dia a dia do cidadão. Dessa ousadia poderá surgir o compromisso da sociedade com a efetiva criação de instrumentos populares de controle para assegurar direitos já conquistados e criar novos direitos. O elitismo universitário é um desserviço para a sociedade.


Brasília, 04 de junho de 2016
Francisco Ferreira Morbeck
Advogado e Jornalista
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