quinta-feira, 18 de julho de 2013

ÁGUAS DE JUNHO E 11 DE JULHO: DUAS FACES DA MESMA MOEDA

É comum no Brasil a aferição do valor de um determinado político ser considerado com base no número de votos (ou intenção) que ele detenha junto ao eleitorado. O vício é uma “reserva de marketing e mídia” - de poder consequentemente, para quem está na política ou tem a imagem constantemente exposta. É, sem dúvida, uma aferição que confere credibilidade a muitos indivíduos que, cedo ou tarde, transformam-se em símbolos de frustração, já que seu cacife foi produzido na ausência de parâmetros socialmente significativos, capazes de ir além do modelo de venda de produto de consumo típico de supermercado. Ontem eu ti omava, hoje não omo mais. Porque sim. Tipo isso.
Seguindo o caminho desse raciocínio paupérrimo, não é estranho que, nesse momento, todo movimento social no Brasil tenha como parâmetro as manifestações de junho de 2013. Tratamento que tem sido dado pela mídia, que importa a pobreza numérica do comparativo de votos (ou intenção) do ambiente político partidária para suas redações, adaptando-a apenas.
Comparar as manifestações de junho de 2013 com a manifestação de 11 de julho, convocada pelas centrais sindicais e sindicatos do país, levando em conta apenas o número de participantes, revela a pobreza de nossa mídia e de seus quadros militantes, para não admitir o mais grave: uma uníssona tentativa de calar os movimentos sociais organizados. Senão vejamos.
As manifestações de junho comportaram um número extraordinário de jovens de classe média que não foram para as ruas sob a ameaça de perda do emprego. Passeavam pela vida, como cidadãos de pleno direito.
Do mesmo modo, por estarem num movimento “espontâneo” – no sentido da ausência de organização institucional, não sofreram qualquer constrangimento legal ou ameaça por parte dos tribunais, como foi o caso recente da interrupção do tráfego de caminhões, em que a justiça determinou uma multa de R$6,3 milhões ao Movimento União Brasil Caminhoneiro (MUBC), penhora dos bens do presidente e ameaça de multa de R$100 mil reais por hora, caso a obstrução das vias persistisse. O que você faria sob tamanha ameaça? Fortalecer o movimento ou recuar? No quadro que vivemos, em que todo movimento tem como causa principal um Brasil do futuro já, não é possível a nenhum líder evitar as manifestações, pois a rua transformou-se no único espaço de diálogo respeitado pelos poderes constituídos, seja ele executivo, legislativo ou judiciário.
Enquanto os jovens manifestantes das águas de junho voltaram para suas casas tranquilos após cada uma das manifestações, os trabalhadores que se aventuraram nessa massiva luta de trabalhadores pelo Brasil afora em 11 de julho, tinham sob suas cabeças a ameaça do desemprego no dia seguinte.
Os jovens manifestantes das águas de junho lutaram por bandeiras dispersas (redução da passagem, passe livre, saúde, educação) que estão na boca de qualquer cidadão pela constante exposição desses temas na mídia. Bandeiras que colocam em cheque a qualidades dos serviços públicos oferecidos aos cidadãos. Aqui os jovens vão às ruas para dar sua contribuição à sociedade na oferta de serviços essenciais.
Já os trabalhadores do 11 de julho tinham bandeiras mais abrangentes (40 horas semanais, fim do fator previdenciário, reforma agrária), temas que proibidos de frequentar a mídia. Bandeiras que colocam em cheque o modelo capitalista de acumulação de riquezas nas mãos de poucos. Aqui os trabalhadores vão às ruas para dar um novo rumo ao modelo econômico e social do país que lhes garanta, ao menos, não amargarem na fila do desemprego ou das bolsas governamentais num futuro próximo.
Como se pode ver, comparar as manifestações de 11 de julho com as águas de junho apenas pelo número de pessoas beira a uma simplificação sem paralelo. Repetir a banalidade dessa comparação – a ponto de desclassificar e retirar da pauta o 11 de julho, confirma a comprometida imagem internacional da imprensa brasileira como superficial e incapaz de analisar os fatos quando há necessidade de ir além das aparências. A crise de qualidade no Brasil não é, apenas da educação, da justiça e dos serviços públicos, a imprensa também faz parte desse rol.
Portanto, o 11 de julho, pelos riscos e a qualidade dos temas tratados, tem importância totalmente distinta das águas de junho. Sem exageros, podemos afirmar que as águas de junho refletem a consolidação do modelo de sociedade cidadã que à duras penas foi conquistado por décadas de lutas das organizações de trabalhadores na construção da democracia brasileira. Dois momentos que se somam na mesma causa: o Brasil do futuro já.

Chico Morbeck
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