quinta-feira, 25 de julho de 2013

CARTA ÀS RUAS DO BRASIL: PERSEVERA QUE ESPERANÇA!

Não é fácil ser defensor de causas perdidas. Mas, durante muito tempo foi assim comigo, nessa curta existência de 58 anos. Não parece o caso do jornalista da revista Veja, Reinaldo Azevedo (que bem simboliza o tipo atual de exercício da liberdade de imprensa), pois espalha mísseis contra tudo e todos como se a única razão da guerra – ele – fosse suficiente para desenhar o futuro.
Aos nove (1964) assisti nas ruas de Taguatinga, no Distrito Federal, uns poucos atrevidos atacando um ônibus durante os meses que antecederam a Ditadura Militar. Joguei pedra, ajudei a depredar ônibus (é o que dizem, mas eu juro que é mentira!). Mas eu estava lá. Havia uma “revolta” contra a perseguição militar à João Goulart, isso me bastou. Minha primeira causa perdida.

Continuei vendendo pirulito e jornal pelas ruas até os quinze anos e assustava-me a máxima daquele tempo: religião, futebol e política não se discute. E não se discutia mesmo, era proibido. De religião eu sabia que era batizado, mas não dava conta de me adaptar ao “deixar tudo por conta de Deus”, principalmente por perder a infância no esforço de ganhar o pão de cada dia. Futebol não era meu fraco, pois uma passagem relâmpago por um time de várzea, na condição de goleiro goleadíssimo, me levou a abandonar essa sanha nacional no mesmo dia.  Política então, que política entre 1964 a 1977?
Aos dezesseis anos (1971) vi-me apaixonado pelo teatro. Aquilo de falar para muita gente num tempo em que um encontro ocasional de três pessoas na rua era “dispersado” por qualquer cidadão sob a acusação de “subversão” me pareceu a ousadia que me faltava. Parabéns ao Sesi de Taguatinga, que durante muitos anos acolheu jovens defensores de causas perdidas, fosse a carreira na globo, fosse o sonho de falar quando a regra era calar.
 Aos vinte e um anos (1976) já estava no meio do Movimento Contra o Custo de Vida, da criação da associação de professores do DF, da Educação de Base e do surgimento do movimento popular. Em 1977 estourou uma greve de alunos na UnB – invasão do campus pela política e prisões. Vi, de longe, pois nem tinha terminado o segundo grau, que algo novo estava surgindo. Logo estive entre as cinco mil pessoas que se reuniram no Centro Educacional 02, no Movimento dos Incansáveis Moradores de Ceilândia, lutando contra a expulsão que a Terracap tentava impingir aos pioneiros com o aumento abusivo no preço dos lotes. Passeatas populares, associações de moradores pipocando, resistência de favelados, a criação do Sindicato dos Professores e, por fim, a criação do Partido dos Trabalhadores e da CUT. Um novo tempo: representação política para o Distrito Federal, Diretas Já, não ao Colégio Eleitoral, Eleições Diretas para Presidente e Governadores e reforma política. Uma efervescência sem volta em busca de um país democrático que, para mim, nasceu da ousadia da greve dos estudantes da UnB estrondosamente seguida pelas greves do ABC. Daí até a eleição da Dilma vocês já devem saber.
Tudo isso pra dizer que não vejo com surpresa a derrota das instituições (executivo, legislativo e judiciário) nas manifestações de rua, a que chamo Águas de Junho. Será o início de uma volta ao passado autoritário? Ou será o limiar de uma sociedade igualitária?
Não acredito em nenhuma das duas hipóteses. Nem num revés político, numa vitória do atraso e do conservadorismo, nem no seu oposto. Pois, apesar das Águas de Junho acertarem no alvo (o Estado), não há evidências de desejos autoritários, nem anseios por uma sociedade anarquista (sem Estado). Creio, no entanto, que vale buscar algumas respostas na história das lutas sociais que o Brasil e o mundo oferecem com fartura. Nelas se poderá aprender que os movimentos de massa são imprevisíveis, e cobram caro a repetição das velhas práticas políticas que fazem da omissão, da inoperância e da ineficiência suas moedas de troca para manter tudo como está: judiciário lentíssimo e inacessível – portanto injusto; legislativo que não fiscaliza – portanto incompetente  e executivo que não executa - portanto inútil.
Para que as Águas de Junho significassem um retrocesso, seria necessário que todo o pensamento democrático, progressista e socialista tivesse sucumbido ao canto da sereia dessa nossa democracia e desaparecido pelo ralo. Sinceramente, não creio que isso tenha acontecido. O que se pode aprender com os jovens nas ruas de hoje é que essa é uma luta contra o simulacro de democracia, justiça, república, socialismo, socialistas, comunistas e outras designações pretensamente vinculadas ao poder que do povo emana. Foram à lona os fantasmas moribundos que falam em liberdade com um cadáver pendurado entre os dentes. Grupos de pequenos burgueses com ares de “conscientizadores” e “lideranças” que ao longo do novíssimo processo político democrático experimentado no pós-ditadura militar, foram implacáveis no esvaziamento das lutas populares, das organizações de base e outras formas de participação capazes de construir uma sociedade participativa, demonstrando que nem a política querem socializar. Preferiram as manobras eleitorais institucionais, os conchavos de gabinete, os coeficientes eleitoras e outras baboseiras da ocupação do aparelho de Estado, orquestradas pela burguesia nacional. Juntas, por meio da política institucional (partidos, eleições) a direita de sempre e o que sobrou da esquerda, cumpriram o seu papel de usurpar os anseios populares por mudanças significativas na realidade brasileira pós-ditadura e em seu lugar instalar a desesperança nas massas.

Antes tarde do que nunca
Se no processo pós-ditadura, que esvaziou o sentimento de esperança do povo brasileiro desenhou-se uma vitória da elite conservadora e seus adeptos, nesse momento, em que as ruas se acendem, conclamamos os perdedores de hoje (enfim não estou entre eles!) a fazer uma leitura mais qualificada dos fatos – coisa que sabemos ser possível aos que forem capazes de calçar as sandálias da humildade. Desse modo, talvez seja possível evitar que as Águas de Junho desaguem no fortalecimento do neoliberalismo ou, na pior das hipóteses, transforme-se na ponta do iceberg de um verdadeiro populismo de direita.
Se a pior herança dessas doze últimos anos foi a exclusão dos movimentos populares e dos movimentos de massa do processo político - que resultou nessa sequência de governos dos “explorados e oprimidos” – temos um longo trabalho pela frente para levantar e dar a volta por cima, pois a poeira já foi sacudida.
Sem meias palavras, minha expectativa é de que essa não seja uma causa perdida. Aos rincões desse Brasil, jovens de todos os tempos, não abandonem as ruas! Persevera que Esperança!

Chico Morbeck
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