sexta-feira, 26 de julho de 2013

Protesto: "A polícia resolveu que éramos uma quadrilha”

Tenho 28 anos, sou professora e faço doutorado no Ippur/UFRJ. Acompanho as manifestações, pois acho importante o momento que estamos vivendo, no qual inúmeras pessoas saíram da letargia e apatia que caracterizaram os últimos anos no Brasil. 
Mando este relato sobre o que passei na noite de 17 de julho de 2013, quando fui presa, agredida e acusada de formação de quadrilha junto com mais seis rapazes. Fomos presos pelo simples fato de termos corrido de três viaturas que entraram atirando na rua em que estávamos. A polícia resolveu que éramos uma “quadrilha” simplesmente porque
nos abrigamos em frente a um prédio com fachada de vidro, pois sabíamos que a chance de os policiais continuarem atirando, em Ipanema/Leblon, em um prédio daqueles seria menor. ... 
Fui baleada duas vezes por balas de borracha (uma na perna e outra na altura da cintura, que acertou a minha bolsa e quebrou minha máquina fotográfica). Fui agredida por um policial e, para não ser levada para Bangu (!!!), precisei pagar R$ 700 de fiança. Fui liberada às 5h30m quase sem conseguir caminhar, com muita vontade de chegar em casa, lavar o ferimento da perna e ver o tamanho do estrago. 
Hoje, assistindo aos noticiários, fiquei surpresa com a quantidade de imagens que a mídia e a polícia tinham dos atos que são, por eles, considerados de vandalismo. Alguns vídeos têm cerca de dez minutos. Com tanto policial infiltrado (fáceis de identificar) e com a polícia motorizada entrando a toda velocidade e atirando no meio dos manifestantes, eu me pergunto: por que nenhuma daquelas pessoas filmadas não estava na delegacia e não foi presa? Se a polícia estivesse mesmo tão interessada em conter os atos de vandalismo, por que esses policiais à paisana estavam seguindo pessoas que estavam longe da “confusão”? 
Cabe ressaltar que a polícia registrou que nos prendeu na Rua Visconde de Pirajá, sendo que eu fui presa na Redentor, 294. A intenção da polícia é dizer que nos prendeu no meio de onde estavam quebrando bancos. A sorte é que eu fiz registro de agressão policial (um policial me agrediu), e no meu depoimento eu disse exatamente o endereço em que tudo aconteceu. 
Em vários momentos, vi policiais mascarados e sem identificação perseguindo, agredindo e enraivecendo os manifestantes. Os P2 em nenhum momento se ocuparam daqueles que chamam de “vândalos” na TV. Para mim, está claro que a intenção é amedrontar manifestantes, deixar o “vandalismo” correr solto (incitando-o, inclusive) para desqualificar os atos. Meus colegas de “quadrilha” eram mais jovens do que eu, entre 17 e 20 anos, de diferentes classes sociais e não se conheciam. Um perigo para a sociedade! 
Nunca cometi crime algum, tampouco quebrei bancos ou seja lá o que for. Participo do Comitê Popular da Copa e Olimpíadas. Lá, organizamos atos, acionamos o MP, fazemos denúncias, acompanhamos e documentamos as arbitrariedades que ocorrem com a desculpa festiva dos megaeventos. Nunca houve confronto com a polícia ou vandalismo. Isso é um indício de que a minha forma de participar, seja colaborando com a organização ou simplesmente como manifestante, é pacífica. 
Já fiz denúncia no Ministério Público e espero a Defensoria Pública para responder à acusação. Estamos sendo expostos, um prejuízo incomensurável para nós. Já estamos desmentindo a reportagem nas redes sociais e recebendo muita solidariedade de todos. 

Por Carla Hirt é geógrafa
Fonte: O Globo - 26/07/2013 em www.edsonsombra.com.br 


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